Por Sandro Araújo
Osama bin Laden está morto. A notícia foi dada no final da noite de domingo, 1º de maio e somente na manhã da segunda-feira, 2, tornou-se “universal”.
Passadas 36 horas da divulgação oficial, pelo presidente estadounidense Barack Obama – curiosamente com nome muito parecido com Osama, é possível fazer as primeiras considerações.
Antes de mais nada, é importante ressaltar alguns aspectos públicos mas nem tanto notórios sobre o nosso personagem:
- Osama bin Laden nasceu na Arábia Saudita.
- Faz parte de uma família extremamente rica, envolvida no setor do petróleo.
- Recebeu, a exemplo de Saddam Hussein, treinamento da CIA e outras agências dos EUA.
- O interesse dos EUA em treinar bin Laden referia-se à tomada do poder no Afeganistão, àquela época dentro da esfera de domínio da União Soviética.
- As famílias bin Laden e Bush foram sócias em investimentos no setor petrolífero – veja o caso da Arbusto Energy. Sim, Bush de George Bush Pai e George W Bush, ambos ex-presidentes dos EUA.
- bin Laden foi dado como morto ainda em 2001, pela Fox News, emissora estadounidense, devido a problemas pulmonares.
- Durante quase uma década, o mundo foi informado que Osama bin Laden estaria escondido em cavernas, provavelmente no interior do Afeganistão. Isto justificou inclusive a invasão do país, com a queda do regime Talibã. A ocupação permanece até hoje.
- Osama bin Laden foi localizado em uma casa localizada a cerca de um quilômetro de importante instalação militar do Paquistão, em área urbana da cidade de Abbottabad.
- As primeiras notícias davam conta de que o “maior terrorista do mundo” teria utilizado uma de suas esposas como escudo humano. Pela mesma notícia, a esposa teria morrido na ação.
- Posteriormente a notícia foi revista. Há tanto o informe de que nenhuma esposa de bin Laden morreu na ocasião nem sequer qualquer mulher foi utilizada como escudo humano.
- O corpo de bin Laden teria sido lançado ao mar, numa tentativa de evitar “romarias” ao seu túmulo
- Outra notícia dá conta de que bin Laden teria sido morto por um de seus próprios seguranças, para evitar sua captura pelas tropas estadounidenses.
- Analistas dão conta de que a “Guerra ao Terror”, iniciada após os ataques de 11 de setembro de 2001, já tenha custado 12 trilhões de dólares aos cofres estadounidenses.
É no mínimo estranho imaginar que a nação mais equipada do mundo em termos militares e de inteligência tenha demorado nada menos que dez anos para localizar quem quer que fosse. Há analistas e mesmo fontes governamentais que afirmam que Osama teria contado com apoio de agentes graduados do governo Paquistanês, os quais o mantinham informado de quaisquer tentativas de localização, dando-lhe cobertura na permanência em território nacional. Esta teria sido inclusive a razão pela qual os EUA agiram sem sequer dar satisfação ao governo local.
Voltemos a setembro de 2001. O então presidente dos EUA, George W Bush, estava cambaleante no primeiro período de governo e enfrentava índices baixíssimos de popularidade. Havia quase unanimidade de que, a exemplo do pai, “Bush Jr” não seria reeleito. Vale ainda ressaltar que a eleição de “Bush Jr” ficou eivada com suspeitas de manipulação de resultados, em especial na Flórida, então governada por seu irmão, “Jeb Bush”.
Afirmar que Bush Jr teve qualquer envolvimento nos ataques terroristas é no mínimo adesão a “Teorias de Conspiração”. Mas é fato que ele foi quem mais se beneficiou com o desenrolar dos fatos. Foi reeleito em 2004 e realizou o sonho de permanecer 8 anos à frente dos Estados Unidos da América. Nunca é demais ressaltar, no entanto, que o seu vice-presidente, “Dick Cheney”, foi presidente da Halliburton, empresa da qual saiu em 2000 para assumir a vice-presidência, e que veio a ser a maior beneficiária dos projetos para reconstrução do Iraque.
À primeira vista, a morte de Osama bin Laden, ordenada pelo atual presidente dos EUA, Barack Hussein Obama Jr, deverá auxiliar o mandatário estadounidense na sua reeleição em 2012. A exemplo de Bush Jr, Obama enfrentava, até o anúncio da morte de Osama, baixíssimos índices de popularidade.
Curiosamente, em 4 de abril de 2011, faltando mais de um ano e meio para as próximas eleições presidenciais, Barack Obama anunciou que irá concorrer à reeleição e divulgou sua estratégia de campanha. Menos de 30 dias depois, apresenta como grande trunfo a morte do “inimigo número um dos EUA“: Osama bin Laden.
Tudo parece caminhar, agora, para uma reeleição tranqüila de Obama em 2012.
E os republicanos? Vão assistir de camarote o desenrolar dos fatos?
Nunca é demais lembrar que toda a doutrina da “Guerra ao Terror” foi concebida pelos republicanos… Obama foi eleito prometendo acabar com Guantânamo e com as guerras do Afeganistão e do Iraque mas tudo permanece como dantes…
Agora, um outro aspecto dos fatos. Se Obama ganha popularidade com a morte de Osama, o que resta da “Al Qaeda” e dos seguidores de bin Laden?
As notícias são de que a organização criminosa permanece ao mesmo tempo forte e fragmentada. A fragmentação, aliás, é característica da gênese da “Al Qaeda”. A organização nunca teve uma estrutura hierárquica definida. O que diferenciava Osama bin Laden é o fato de que ele financiou durante muito tempo diversas células terroristas. Provavelmente continuará financiando, uma vez que seus recursos financeiros devem estar pulverizados em diversos países – e acessíveis aos membros da organização terrorista.
Mas… ao final e ao cabo, o que queria Osama bin Laden? Como milionário, bastaria que vivesse a fortuna herdada do pai, fazendo-a multiplicar, curtindo a vida com as suas diversas esposas e tendo dezenas de filhos. Quis mais. Como fundamentalista religioso, inspirado pela idéia de “Guerra Santa”, escolheu lutar contra o mundo ocidental. As ações terroristas implementadas pela “Al Qaeda” geralmente utilizavam suicidas, mártires, os quais serão sempre lembrados pelos seus pares.
Para nós, ocidentais, é sempre difícil entender a idéia de auto-imolação. Mais difícil ainda imaginar que alguém se mate em nome de um ideal e deixe que o chefe de seu grupo – no caso, o próprio bin Laden – permaneça vivo e usufruindo as benesses da vida de milionário. Esta imagem é paradoxal… E parece que bin Laden sempre soube que deveria coroar sua passagem terrena com um destino épico: como Mártir. É esta a inspiração que resta para os seus seguidores. Ter passado nada menos que 10 anos sem ter sido capturado ou mesmo localizado pela inteligência ocidental pode também ser um exemplo a ser seguido.
O que se vê no noticiário, por agora, é a tentativa de desconstruir a imagem de bin Laden Mártir:
- Um Mártir não se esconde atrás de uma mulher, utilizada como escudo, para evitar a própria morte. Mártir é mártir exatamente por enfrentar a morte de “peito aberto”. Infelizmente, para a contra-propaganda estadounidense, a versão do escudo humano já foi desmentida.
- A imagem de mártir combina mais com alguém escondido em uma caverna e não em uma casa confortável. O contraponto a “favor” de Osama é que estava debaixo do bigode do inimigo e que demorou uma década para ser capturado/localizado/morto.
- Ao lançar o corpo de Osama bin Laden no mar, como foi noticiado, os EUA procuram evitar aglomeração de seguidores junto a eventual túmulo do mesmo, onde quer que fosse. Vale ressaltar que eventual “romaria” pode ser feita ao local onde nasceu ou mesmo foi morto – basta que haja interesse de seguidores.
Certamente ainda haverá novos desdobramentos desta história. Uma coisa é fato: Osama bin Laden passa à história como alguém que veio ao mundo e obteve algumas vitórias. A sua guerra tinha mais à ver com causar incômodo que necessariamente implantar um islamismo radical em todo o mundo. A queda das “Torres Gêmeas” representou uma enorme cicatriz no “orgulho americano”. A morte de bin Laden não vai apagar esta cicatriz.
E Obama? De fato caminha para uma tranqüila reeleição. Mas é difícil imaginar que os republicanos venham a assistir impávidos esta situação. Cumprindo a doutrina da “Guerra ao Terror”, Obama corre o risco de “dormir com o inimigo”. E quando este inimigo acorda…
A chave da queda de popularidade de Obama, desde a sua eleição, tem sido a economia. Com gastos astronômicos para sustentar duas guerras, resta pouco para fazer a economia andar. No ideário estadounidense, o país cresce com as guerras. Foi assim na primeira e na segunda guerras mundiais. Ocorre que nos dois primeiros casos, o teatro de guerra era bem distante e em ambas os EUA iniciaram como atores coadjuvantes. Nas guerras atuais, é ator principal. Além do mais, após dez anos, o contribuinte estadounidense não aceita tão passivamente as justificativas de “manter a segurança nacional e internacional”.
Obama pode estar com a faca e o queijo na mão: a “Guerra ao Terror” começou, os republicanos foram incompetentes em localizar bin Laden, nós, democratas, localizamos e o eliminamos. Agora podemos acabar com a guerra e voltar nossa atenção para assuntos domésticos.
Enquanto isto a China corre a passos largos para ocupar cada espaço possível. Já é a principal parceira comercial de diversos países, o país inclusive. É o maior credor da dívida estadounidense e pode vir a ser a maior economia do mundo mais cedo que se espera. Neste meio tempo agências internacionais “ousam” sinalizar um eventual rebaixamento da dívida dos Estados Unidos, de AAA para AAA-.