Por
Sandro Araújo
Muito se tem falado nos últimos dias sobre as recentes eleições no Congresso Nacional - findas as quais Renan Calheiros (PMDB-AL) foi reeleito presidente do Senado e Arlindo Chinaglia (PT-SP) foi eleito no segundo turno para presidente da Câmara dos Deputados.
A opinião quase unânime é: enquanto num jogo de caciques Renan foi reeleito, mantendo a tradição do Senado em eleger um representante da maior bancada, no caso da Câmara dos Deputados houve um verdadeiro racha da base governista, uma vez que tanto o eleito quanto o principal concorrente cerram fileiras em partidos que apóiam o Presidente Lula.
Chega-se a falar que um enorme risco para a governabilidade foi criado a partir da acirrada disputa Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que disputava a reeleição e Chinaglia, ao final eleito. Afirma-se ainda que o fiel-da-balança teria sido o PSDB, que ao final do pleito "despejou" votos no candidato petista. Há quem diga, inclusive, que teria havido um forte dedo do Governador de São Paulo, José Serra, no resultado final. Serra teria agido assim como forma de isolar o ex-presidente FHC - que apoiou o terceiro concorrente, Gustavo Fruet (PSDB-PR). No segundo turno Fruet declarou apoio a Rebelo. Posteriormente Serra negou que tivesse pedido apoio a Chinaglia.
A maior prova do racha da base governista, dizem os analistas, seria o placar apertado que resultou na eleição de Chinaglia: 261 a 243 votos. No primeiro turno Chinaglia já havia amealhado 236 votos. Isto significa que ganhou apenas 25 novos votos. Já Rebelo teve 175 votos em primeiro turno. Ganhou outros 68 na votação final. Em entrevista, Chinaglia chegou a reconhecer que teve menos votos que originalmente previa.
Agora vamos aos fatos: findas as eleições, o PT voltou ao comando da Câmara dos Deputados - que comandou com Luiz Paulo Cunha entre 2003-2005 e o aliado PMDB manteve-se no comando do Senado Federal. A base governista na Câmara é enorme, com tendência a crescer e mesmo no Senado - onde Lula teve enormes problemas no primeiro governo - a base governista cresceu.
Lula estaria assim, rindo para as paredes…
E o que não foi falado até agora?
Na eleição anterior à Câmara dos Deputados a base governista ficou dividida e o próprio PT lançou dois candidatos à presidência: Luis Eduardo Greenhalgh (SP) e Virgílio Guimarães (MG). Enquanto Greenhalgh posava de candidato oficial, Guimarães correu por fora. Mais por fora correu o chamado Rei do Baixo Clero, Severino Cavalcanti (PP-PE): não só foi a um inédito segundo turno como sagrou-se vencedor, com uma enxurrada de votos da oposição. Deu no que deu: em menos de um ano Cavalcanti viu-se obrigado a renunciar ao mandato parlamentar devido ao escândalo do "mensalinho". Uma eleição extemporânea foi realizada e Aldo Rebelo foi eleito presidente da Câmara.
A demora do Presidente Lula em indicar a composição do ministério para o segundo governo tem total conexão com a expectativa quanto ao resultado das eleições na Câmara e no Senado. Lula teria inclusive afirmado que estas eleições seriam o grande teste para a coalizão governista. Com o lançamento de dois candidatos governistas à Presidência da Câmara, Lula temeria uma repetição do desastre que resultou na eleição de Cavalcanti.
As articulações para o lançamento dos candidatos à Presidência da Câmara começaram logo após o resultado final das eleições de 2006. Intensificaram-se em meados de dezembro. Durante todo o mês de Janeiro os até então dois candidatos viajaram o país inteiro em busca de apoio. Rebelo era o Presidente e lutava por uma reeleição. Chinaglia começou a campanha quase desacreditado mas soube reunir em torno de si um leque enorme de aliados. Aos poucos sua candidatura cresceu e superou a de Rebelo. Surgiu aí a proposta de uma terceira via, capitaneada por partidos oposicionistas. O primeiro nome cogitado foi o do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), que logo foi descartado. Findas as articulações, o paranaense Fruet foi o escolhido. Por ser filiado ao PSDB, viu a debandada do PSol de sua campanha imediatamente ao lançamento. O PSDB já havia feito um acordo com o PT para apoiar Chinaglia. A cúpula tucana viu-se, no entanto, obrigada a retirar o apoio ao petista em favor do seu correligionário. Ao final do primeiro turno Fruet teve decepcionantes 98 votos. Mas sua candidatura forçou o segundo turno.
Desta vez, ao contrário de 2003, dois governistas estavam no segundo turno da eleição das Câmara dos Deputados. Vencesse quem vencesse, o vitorioso seria o próprio Presidente Lula. Restava o risco de um racha da base. Lula chegou a falar que, findas as eleições, um mercúrio seria usado para curar as feridas…
Pois ao que me parece, ao contrário do senso comum, é que não se tratou de um racha da base. O Presidente Lula, que desde o decepcionante resultado do primeiro turno de 2006 soube articular apoios e foi reeleito num segundo turno onde o adversário, Geraldo Alckmin, teve menos votos que no primeiro turno, teria mais uma vez agido de forma extremamente habilidosa no xadrez político: ao permitir que dois candidatos da base governista se lançassem à Presidência da Câmara, esvaziou a possibilidade de uma terceira via (ou segunda) viável. Imagine-se o desgaste que uma candidatura de Rebelo ou mesmo de Chinaglia caso fosse lançada como única, logo após as eleições de outubro de 2006: este desgaste abriria espaço para o lançamento de um outro candidato (Fruet?), com maior tempo e possibilidade de arranhar o candidato único.
Com Rebelo e Chinaglia na disputa, viu-se um fenômeno interessante: parte da oposição preferiu apoiar Rebelo (aí incluído o renhido PFL), enquanto boa parte da base governista apoiava Chinaglia. Em determinado momento Chinaglia chegou a sugerir a realização de uma prévia para escolher o candidato. Esta prévia seria feita dentro da base governista. Rebelo não aceitou pois sabia que boa parte de seu apoio vinha da oposição. Uma isca teria sido lançada, com a manutenção da candidatura de Aldo Rebelo. E a oposição teria caído nesta isca. Chinaglia também manteve-se candidato e ao final foi eleito.
O que houve, de fato, foi um racha da oposição! O próprio PSDB viu-se entre a cruz e a espada quando Fruet foi lançado candidato. O PFL ficou todo o tempo com Rebelo. No segundo turno o PSDB rachou…
Agora Lula tem os dados que precisava para divulgar o seu ministério. Que não paire dúvida de que os nomes já foram todos escolhidos, antes mesmo das eleições do Congresso Nacional. Lula esperava apenas que os acordos pré-firmados fossem respeitados.
Com Renan Calheiros no Senado e Arlindo Chinaglia na Câmara dos Deputados, prevê-se um biênio tranqüilo na relação Governo x Congresso.
É esperar para ver!