O país sem Lula

O que fascina na discussão do terceiro mandato é saber como será o Brasil depois que o atual presidente encerrar o lento e gradual ciclo de poder da geração pós-ditadura

Por Luciano Suassuna - Istoé - 14/11/2007

Diante dos jornalistas que cobrem o dia-a-dia do Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi enfático: “O Brasil não pode brincar com uma coisa chamada democracia”, disse ele, na segunda-feira 5. “Acho que é insensato qualquer pessoa ficar discutindo aumentar para um terceiro mandato.”

O fascinante nas reiteradas manifestações sobre o tema não está na efetiva possibilidade de Lula vir a ter o direito de disputar um terceiro mandato. O que interessa agora é tentar entender a questão central desse debate. Toda a ansiedade dos políticos, na verdade, se origina numa dúvida bem mais simples e ao mesmo tempo mais complexa do que qualquer mudança constitucional.

Como será o Brasil sem Lula?

Esse é o ponto.

Sua simplicidade está em saber que no dia 1º de janeiro de 2011, uma provável manhã de chuva em Brasília, alguém cruzará a passarela de mármore branco que liga o Salão Leste do Palácio do Planalto ao Parlatório e, diante da multidão abrigada na Praça dos Três Poderes, irá se curvar suavemente para que Lula deposite sobre seu ombro a faixa presidencial.

A complexidade dessa mudança reside no fato de que, ao contrário de todos os grandes episódios que marcaram os últimos 25 anos, ninguém sabe qual o melhor roteiro para que isso aconteça. Porque se existe algo facilmente constatável na história recente do País é que o período que se convencionou chamar de redemocratização brasileira está indissociavelmente ligado a Luiz Inácio Lula da Silva. É como se um não tivesse podido existir sem o outro. E agora que os dois colhem os frutos da normalidade constitucional, da estabilidade econômica e da redistribuição de renda, marchando assim para o seus melhores momentos, vivem paradoxalmente a certeza de que o tempo de ambos está chegando ao fim.

Foi o lento e gradual processo de redemocratização, iniciado com o renascimento do movimento operário e as greves do ABC em 1977 e engrossado com a anistia e o pluripartidarismo em 1979, que levou Lula ao PT – e vice-versa. E, a partir daí, Lula e seu PT (ou vice-versa) oscilaram ora como ameaça de retrocesso, ora como garantia da democratização do País. Mas foram sempre peça-chave desse processo, incluindo as muitas ocasiões em que se manifestaram pela ausência, como na tentativa de Itamar Franco de fazer um governo de união nacional ou, antes, na eleição indireta de Tancredo Neves e José Sarney.

Lula é maior que todos os outros protagonistas da redemocratização porque só ele conseguiu interpretar, por duas décadas, o duplo papel de tese e antítese – o Lula e o anti-Lula. Esse personagem contraditório, que representa ao mesmo tempo o que ele diz e o que se diz dele, mostrou seu poder ambivalente no segundo turno da disputa presidencial de 1989.

A própria figura do segundo turno, é bom lembrar, foi aprovada na Assembléia Nacional Constituinte pelo temor de que Leonel Brizola ou Lula faturassem a primeira eleição para presidente depois da ditadura. Era uma aposta conservadora que rompeu com a tradição eleitoral brasileira para que, nos pleitos seguintes, se mostrasse não apenas uma providencial barreira contra aventureiros como também um elemento garantidor da estabilidade do jogo democrático. Com o segundo turno, a elite nacional emitiu o primeiro sinal de que Lula e seu PT (ou vice-versa) eram paradoxalmente vistos como uma ameaça e uma garantia à democracia e à ordem constitucional.

E então, na disputa de 1989, Lula ganhou a dualidade definitiva. Fernando Collor levou de fato o primeiro turno, mas quem o colocou no Palácio do Planalto foi o anti-Lula – o medo, capaz de convencer a maioria de que o candidato do PT poderia promover, em parte ou no todo, a insegurança jurídica, o caos econômico, o autoritarismo político e o fim do direito à propriedade.

Havia, claro, o fato de que, na Constituinte, o PT e seus apêndices (pastorais de toda sorte, povos da floresta, sem-terra e afins) retardaram o desenvolvimento do País ao ajudar a escrever o anacrônico capítulo da ordem econômica. Mas também é verdade que, como ficou provado no caso Miriam Cordeiro, havia o que Lula falava e o que se falava dele.

Curiosamente, o segundo turno de 1989 revelou, na prática, que a resistência a Lula servia também de fonte de seu poder. Foi o segundo turno que lhe deu a estatura de maior líder de oposição e fez do PT alternativa real de governo. Em grande parte, o impeachment de Fernando Collor, por exemplo, só foi possível graças à esperança mobilizadora de uma revanche empreendida por Lula e seu PT. A normalidade constitucional com que se processou o impeachment é fruto da ameaça que essa revanche significava para a dominante fatia conservadora do Congresso brasileiro. O risco Lula garantiu a posse de Itamar Franco e foi o anti-Lula a pedra de toque do Plano Real, que fez o Brasil alcançar a estabilização econômica.

A enorme aliança política em torno de Fernando Henrique Cardoso existiu apenas porque o prazo para se criar uma candidatura alternativa a Lula era pequeno e o atual presidente era o franco favorito em 1994. Mesmo tendo todos os méritos de ter debelado a hiperinflação no Brasil, Fernando Henrique só conseguiu aprovar a idéia da reeleição, na sociedade e no Congresso, porque nela estava embutida uma forte ação anti-Lula. A reeleição, como o segundo turno, era prova de que Lula e o PT ainda representavam uma ameaça tanto quanto uma garantia à democracia. E, como ocorrera antes com o segundo turno, demonstrou ser uma medida de fortalecimento da estabilidade democrática, ao mesmo tempo que reforçava o poder e a liderança de Lula.

O PT e seu candidato entenderam essas mensagens quando apresentaram a “Carta aos Brasileiros” em 2002. Por mais contraditório que possa parecer, os 13 anos em que quase chegaram lá propiciaram a Lula e seu PT (ou vice-versa) o aprendizado para virar o jogo dentro das regras. Numa época em que os mercados internacionais tinham se sobreposto aos capitães da indústria, Lula apresentou-se como a conseqüência lógica dos anos FHC, enquanto José Serra parecia o anti-Lula do passado.

Serra vestiu por completo o figurino de anti-Lula não apenas pelo que se dizia dele, mas pelo que ele mesmo dizia, com suas críticas à valorização da moeda nacional, aos juros extorsivos e por um certo pendor, ao menos entre integrantes de sua equipe, ao controle de capitais. Além disso, a partir da passagem pelo Ministério da Saúde, ele explicitara algum gosto pela intervenção no mercado e pela forte regulação de preços.

Dentro de alguns anos, quando os historiadores forem escrever o capítulo da redemocratização brasileira, Lula estará indissociavelmente ligado ao seu melhor momento. E também ao final dela porque, ao contrário da Espanha, que promoveu seu pacto político, econômico e social numa só tacada, quis a nossa história que esse processo fosse construído em etapas distintas e bem marcadas. Com a morte de Tancredo Neves, José Sarney herdou o compromisso de institucionalizar o poder civil. Era um tema a ser encerrado com a promulgação da Constituição. Mas do excesso de ele ter permanecido um ano além da sua responsabilidade histórica é que 1989 é o pior ano da redemocratização.

Coube a Collor reorientar uma bússola econômica desvirtuada por uma Constituinte realizada antes da queda do Muro de Berlim. Tinha a missão histórica de debelar a hiperinflação, mas os desmandos de seus amigos e ministros falaram mais alto. Itamar provou ser a vitória da normalidade constitucional sobre a tradição brasileira e Fernando Henrique conseguiu enfim estabilizar a economia. A Lula coube manter tudo isso e retomar o desenvolvimento com distribuição de renda.

A geração pós-ditadura encerra com o segundo mandato de Lula o seu ciclo histórico com um vitorioso retrospecto de liberdades civis, segurança jurídica, abertura, estabilização e crescimento, além dos dois maiores benefícios: distribuição de renda e redução da pobreza. Aquilo que agora suscita incerteza na classe política – o que será do Brasil depois de Lula? – deveria ser motivo de regozijo para o presidente. Raríssimos são os personagens mundiais que, tendo nascido por conta de circunstâncias políticas particulares, puderam crescer com elas, chegando ao final do processo no auge da popularidade. Insistir no terceiro mandato é interromper esse ciclo virtuoso e diminuir o papel histórico de Lula e seu PT (ou vice-versa). Depois deles, o Brasil estará mais maduro – e melhor.

Reforma Política

Reproduzo abaixo texto do Blog de Josias de Souza, sobre a reforma eleitoral.

Algumas considerações:

O que Souza chama de ‘recall’ foi citado em artigo anterior deste blog, "Reeleição, Promessas, Democracia", de 29 de junho de 2006, do qual eu destaco:

"Talvez falte ao país um outro instituto, além do impeachment: um voto popular de desconfiança. Foi assim que Arnold Schwartzeneger, ex-mister universo e astro de filmes de Hollywood, casado com uma Kenedy (os Kenedy são democratas) mas republicano, foi eleito governador da Califórnia. O então governador Gray Davis havia sido reeleito a apenas um ano para um mandato de quatro. Mas foi realizado um ‘recall‘: a população deveria votar se o governador deveria permanecer no cargo ou não. E em caso negativo, deveria votar em um dos demais candidatos. Deu Arnold."

A proposta do Deputado Ronaldo Caiado (PFL-Go) inclui o chamado voto em lista, o qual eu acho abominável à democracia. Explico: atualmente cada partido ou coligação lança um número razoável de candidatos às eleições proporcionais (deputados federais e estaduais e vereadores). Apurados os votos, determina-se o chamado qüociente eleitoral - um número mínimo de votos necessário à eleição de um candidato. Se determinado partido ou coligação, digamos, tiver direito à eleição de três candidatos, aqueles três com maior quantidade de votos serão eleitos. Na seqüência, os demais ficam como "suplentes". Já na lista fechada, os partidos pré-definem a seqüência na qual os seus candidatos serão eleitos, em função do número de vagas obtidas. Assim, mesmo que determinado candidato não obtivesse o primeiro lugar nas urnas dentro de um partido ou coligação, ele seria eleito, caso se situasse na primeira posição da lista fechada.

Esta prática levaria a um fortalecimento ainda maior das elites partidárias, das oligarquias. Estas elites - que comandam as cúpulas partidárias - naturalmente colocar-se-iam nas primeiras posições das listas. Um caso exemplar é o do agora ex-deputado Severino Cavalcanti (PP-Pe): mesmo sendo um dos caciques de seu partido, em especial em Pernambuco, não obteve a votação necessária para eleição. É o primeiro-suplente de sua coligação. Caso tivéssemos a tal lista fechada, certamente seria o primeiro da lista. E o Câmara dos Deputados teria ganho de volta o ex-presidente que renunciou em meio a uma denúncia de propina para garantir o funcionamento de um restaurante. Outros políticos de renome tiveram o mesmo destino. E continuam nas cúpulas partidárias…

Destaco trecho de artigo da Agência Carta Maior, sobre a lista fechada:

"São três os principais argumentos contra a lista fechada, segundo o professor Jairo Nicolau, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). O sistema de lista aberta permite que o eleitor faça duas escolhas simultaneamente: por um determinado partido ou por um determinado candidato. Em ambos os casos, porém, o voto do eleitor é contabilizado essencialmente para a coligação. No sistema de lista fechada, o eleitor poderia apenas votar no partido - e a sua escolha continuaria a beneficiar, na verdade, a coligação -, e perderia a prerrogativa de definir o nome que mais preza dentro da coligação e do partido. Ou seja, o eleitor ficaria impossibilitado de manifestar sua discordância no que se refere à ordem pré-estabelecida dos nomes disponibilizados pela legenda e, portanto, teria, primeiramente, a sua margem de escolha reduzida."

Outras mudanças incluídas no projeto de Caiado  incluem a redução dos mandatos dos senadores, de 8 para 4 anos e também mudanças na escolha de seus suplentes. Atualmente quem indica os dois suplentes de um senador é o próprio candidato (ou a cúpula de seu partido). O eleitor geralmente não conhece os substitutos de um senador eleito: já houve casos de esposas, irmãos, filhos e mesmo pais como suplentes. E na falta ou afastamento do senador temos verdadeiros senadores biônicos assumindo o posto. Em outras situações temos candidatos bons de voto financiados por alguém sem tanto voto assim e que se colocam como primeiro suplente. Não raras vezes o titular renuncia no meio do mandato dando de presente um cargo de senador ao financiador de campanha. É uma distorção que pode ocorrer com a lista fechada: os financiadores colocam como moeda de troca ao financiamento a sua colocação em posições privilegiadas da lista…

Sugestão de reforma política de Lula inclui ‘recall’

Do Blog de Josias de Souza

O Palácio do Planalto começou a redigir um rol de propostas de alterações na legislação política e partidária. Lula enviará o documento aos presidentes da Câmara e do Senado eleitos em 1º de fevereiro. O texto deve incluir uma idéia polêmica: o “recall.” Trata-se de um mecanismo que permite ao eleitorado revogar os mandatos de congressistas e ocupantes de cargos executivos.

O “recall” abre a possibilidade de que, por meio de referendo convocado por iniciativa da sociedade, os eleitores imponham aos seus representantes o voto revogatório. Para exemplificar: o eleitorado poderia revogar pelo voto o mandato de deputados que, envolvidos em escândalos como o do mensalão e o das sanguessugas, fossem poupados em julgamentos internos da Câmara ou do Senado.

O governo decidiu não enviar ao Congresso um projeto de lei. Encaminhará às duas Casas do Legislativo apenas um conjunto de sugestões. O portador do documento será o ministro Tarso Genro (Relações Institucionais). Em nome de Lula, Genro dirá aos novos presidentes da Câmara e do Senado que o Planalto se dispõe a mobilizar sua base congressual para aprovar as modificações no ordenamento político-partidário.

As sugestões do governo estão sendo extraídas de três documentos: um relatório produzido pelo Ministério da Justiça em 2003; um documento elaborado pela OAB e um conjunto de enunciados que o CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social) divulgou em agosto de 2006. A compilação está sendo feita pela assessoria de Tarso Genro.

O “recall” aparece em duas das fontes que inspiram o governo. Aparece nos textos da OAB e do CDES. Em meio a temas que roçam o consenso –financiamento público de campanha e fidelidade partidária, por exemplo—, o documento a ser encaminhando pelo governo ao Congresso pode conter pontos polêmicos. Eis alguns deles:

  1. Reduzir o mandato dos senadores de oito para quatro anos;
  2. Proibir o parlamentar de mudar de partido durante toda a legislatura;
  3. Proibir ocupantes de mandatos executivos e legislativos de disputar outros cargos antes do término dos mandatos para os quais foram eleitos;
  4. Redefinir regras sobre suplentes de senadores.

O governo desistiu de enviar um projeto de lei acabado por entender que cabe ao Legislativo a iniciativa. Considera-se que há na Câmara um projeto que pode servir como ponto de partida para a discussão: o projeto número 2.679, de 2003. Formalmente, a autoria é do deputado Ronaldo Caiado (PFL-GO). Mas, em verdade, é um apanhado de propostas apresentadas por diversos congressistas. Aproveita também sugestões de Nelson Jobim, ex-presidente do STF.

O relatório Caiado prevê, entre outras coisas, o financiamento público de campanha, o fim das coligações partidárias proporcionais e a votação em lista fechada –modelo em que os eleitores votam em partidos, não em pessoas. São eleitos os candidatos que estiverem nas primeiras colocações de uma lista elaborada previamente pelas cúpulas partidárias. O sistema de listas é o preferido do governo. A OAB prefere o voto distrital.

Ao pôr no papel as suas sugestões para a reforma política, o governo dá curso a um debate tonificado pelo mensalão. Em 2005, numa tentativa de eximir-se de responsabilidades, Lula declarou: “A principal lição que eu tiro [da crise] é que o erro não é de um partido político ou de uma pessoa. O erro é do sistema, que está apodrecido.”

A taxa Selic e a Dívida Pública

Por Sandro Araújo

Esta é uma análise da recente redução da taxa de juros básica da economia brasileira, a Selic, que  foi fixada em 13% ao ano na última reunião do Comitê de Política Monetária - COPOM.

Em reuniões anteriores, o COPOM vinha reduzindo a taxa Selic em meio ponto percentual, até chegar aos 13,25% em sua última reunião de 2006, ocorrida entre 29 e 30 de novembro. Veja a evolução da Selic no infográfico abaixo, da Agência Brasil:

Uma coisa chama atenção na análise do gráfico: A Selic estava em 17,25% em janeiro de 2006 (18,5% em novembro de 2005), chegando em janeiro de 2007 a 13% - uma queda absoluta de 5,5%. Mas a queda relativa da Selic foi de 29,73% no período! Como base de comparação, tomemos a Dívida Pública Total, dados do Banco Central do Brasil, em Novembro de 2006: R$ 1,047 trilhão. Em números de novembro de 2005, somente a rolagem da dívida pública custava R$ 193,7 bilhões ao ano. Com a mais recente redução da Selic, a mesma rolagem passará a custar R$ 136,1 bilhões. Isto significa uma redução de R$ 57,6 bilhões no pagamento de juros da dívida.

Como a trajetória da Selic é descendente, é provável que fechemos o ano de 2007 com um custo de rolagem ainda inferior aos referidos 136 bilhões de reais - digamos 120 bilhões. Tomando-se por base um PIB de cerca de R$ 2,12 trilhões e uma projeção de 4% de crescimento em 2007, seria possível a rolagem da dívida com um superávit da ordem de 3,66%. Desde a sua posse, o Governo Lula tem praticado superávits superiores a 4%.

Num cenário de longo prazo, é possível prever uma redução da relação dívida/PIB, partindo dos atuais 49,3% (Banco Central, Novembro/2006) para patamares mais suportáveis, inferiores a 30%. Paralelamente, a dívida externa brasileira já é inferior às reservas internacionais, o que resulta numa dívida líquida semelhante à própria dívida interna.

A reclamação do setor produtivo quanto ao alto nível da Selic é justa e válida: ainda é a taxa de juros mais alta entre os países em desenvolvimento. E a taxa real ainda é próxima de 10%: altíssima. Mas não se deve deixar de lado a constatação de que a trajetória tem sido descendente nos últimos 14 meses, com uma queda altíssima, como já demonstrado. No médio prazo, com a redução dos custos de rolagem da dívida passa a sobrar recursos para os investimentos que o país tanto precisa.

Outros fundamentos da economia brasileira têm se mostrado altamente positivos. Mesmo com a redução do dólar ao longo dos últimos anos, culminando com cotações próximas a R$ 2,10, as exportações continuam batendo recordes históricos. O superávit comercial também tem se mantido e a corrente comercial (soma de importações e exportações) total é próxima de 200 bilhões de dólares. A título de comentário esta corrente era inferior a 100 bilhões em 2002. Outro fator de preocupação em todo mundo, a cotação do petróleo, tem se estabilizado recentemente, chegando próxima aos 50 dólares o barril.

Resta a torcida para que o Copom mantenha a trajetória descendente da Selic. A redução do ritmo nesta última reunião, de 0,5% para 0,25% sinaliza uma suspensão das reduções no médio prazo. Porém não se deve esquecer que em 2006 o Bacen errou a dose: a inflação apurada foi inferior à meta, sinal que os juros poderiam ter sido ainda menores.

O Governo Federal anunciou recentemente o PAC - Programa de Aceleração do Crescimento, com uma série de medidas para estimular o crescimento. Vale ressaltar que geralmente o crescimento traz consigo uma maior demanda para uma série de insumos. E junto a velha máxima de mercado: maior demanda, menor oferta, alta nos preços = inflação. O Copom certamente leva isto em consideração quando fala da possibilidade de um repique inflacionário…

Resta esperar e ver para crer!

Atualizado em 28 de janeiro com substituição do gráfico com evolução da taxa Selic.

Deu Pau - Uma crônica do Apagão Aéreo

Por Sandro Araújo

Sou um homem da tecnologia. Já se vão 20 anos que lido com os computadores. Mas existe um princípio que sempre levei em conta ao lidar com estas máquinas: elas são falíveis!

Uma das primeiras demonstrações da falibilidade dos computadores foi o episódio em que uma simples mariposa - como tantas que buscavam abrigo e calor na contemplação das válvulas dos primeiros computadores - morreu torrada, causando erros nos cálculos realizados. Pronto: o mundo ganhou uma das primeiras palavras do jargão informático: o BUG - inseto, em inglês. O processo de correção de erros foi batizado de "DEBUG". Por estas terras, houve quem utilizasse a palavra "depurar" para designar o mesmo processo. E o erro? Foi batizado como "erro", "bug" ou simplesmente "pau": quem nunca ouviu "deu pau"? Pois é…

O tema da vez, como nos últimos 60 dias, é o "pau" que deu no controle de vôo brasileiro em seguida aos acontecimentos que ocasionaram a queda do avião Boeing 737-300 da empresa Gol, atingido em pleno ar por uma aeronave de menor porte, um Embraer Legacy. Avião bom este Embraer: derrubou um Boeing e pousou quase ileso! Para quem não se lembra, a Embraer é uma empresa brasileira e foi estatal até bem pouco tempo: mais, a aeronáutica ainda mantém 25% das ações da empresa.

Há quem diga, muitas vezes em tom jocoso, que a fila de encomendas do Legacy triplicou depois do episódio. Inúmeros executivos mundo afora teriam ficado entusiasmados com a segurança da aeronave! Agora digo eu: onde há fumaça, há fogo…

Mas prefiro ater-me a um tema até então pouco discutido: qual a participação dos computadores e dos demais equipamentos eletrônicos na tragédia? Dias atrás uma pane nos equipamentos do CINDACTA I, em Brasília, causou aquele que é considerado o maior caos do transporte aéreo brasileiro em todos os tempos. E mais: faltava um técnico tupiniquim que pudesse dar a devida manutenção no mesmo. Mais uma vez, "deu pau" ! E salve o "bug" !!!

De volta ao tema. Pergunta número um: SE os pilotos do avião Legacy tivessem cumprido o plano de vôo, teria acontecido o acidente? Certamente não, uma vez que o plano de vôo previa que após a passagem em Brasília o mesmo mudaria de altitude. O plano não foi seguido… Pergunta número dois: SE os controladores de vôo em Brasília não houvessem confiado nos radares e no famigerado "transponder", agindo de maneira pró-ativa e verificando com os pilotos do avião Legacy a troca de altitude, teria acontecido o acidente? Novamente a resposta é não! Certos nesta história, infelizmente, apenas os pilotos e os passageiros do vôo 1907 da Gol que, cumprindo o plano de vôo previamente discutido, voavam em altitude coerente com o mesmo.

Atrevo-me a comentar sobre alguns outros equipamentos existentes no controle de tráfego e nos aviões. Confesso que não sou especialista no assunto mas, como tantos brasileiros, sofremos uma avalanche de informações inerentes ao tema nos últimos dias.

Os aviões possuem um outro equipamento que permite identificar a aproximação de algum objeto. É um sistema "anti-colisão". Aparentemente o mesmo não teria disparado nos segundos que antecederam o toque em pleno vôo. Outra hipótese é a de que, tendo disparado, não teria havido tempo hábil para uma ação efetiva dos pilotos do Boeing.

Quando estamos dirigindo um carro, seja numa rua, seja numa rodovia, geralmente temos atenção redobrada. Um simples discuido, uma simples tirada da visão para o lado e um acidente pode acontecer. No caso de um avião moderno, como o Boeing e o próprio Legacy, temos dezenas, centenas de equipamentos que auxiliam o trabalho dos pilotos. Existe até mesmo um piloto automático! Não foi o que houve, mas imagino a cena: após a estabilização do avião e verificação de detalhes como o curso e a altitude, o comandante ativa o piloto automático e vira-se alegremente para o co-piloto e começam a contar piadas ou discutir amenidades… Se algo ocorresse? Certamente uma série de alarmes dispararia na cabine. O sistema anti-colisão é apenas um deles! Após este disparo, bastaria ao comandante retomar o controle da aeronave.

O fato é que confiamos dia após dia, mais e mais, nos computadores, nos equipamentos. Não nos lembramos de que eles próprios têm suas limitações. Ainda: são projetados e programados por seres humanos - estes últimos sujeitos a todo o tipo de falibilidade. Basta lembrar que, logo após o acidente, tornou-se público que "transponders" do mesmo fabricante daquele existente na aeronave da Embraer possuíam erro de programação que faziam com que os mesmos desligassem voluntariamente. O ser humano é fundamental! Não o fosse já viajaríamos hoje em aviões totalmente automatizados, sem pilotos ou co-pilotos… O próprio piloto automático somente é acionado, como disse, após a estabilização da aeronave.

E o controle de tráfego? Teriam também confiado nos equipamentos? Certamente sim. A rotina de um controlador de vôo, estressante, é o monitoramento de uma tela de radar que possui um número determinado de aviões, conferindo o curso, a altitude e outras informações referentes aos mesmos. Com o caminhar das investigações descobriu-se que um dos controladores inferiu que a altitude do avião Legacy seria aquela constante do plano de vôo, sem no entanto confirmar a informação com o piloto da aeronave. Mais uma vez, confiou-se no equipamento. Como se confiou que os procedimentos seriam seguidos pelos pilotos estadounidenses.

Não quero aqui isentar uns ou acusar outros. Uma seqüência de erros fez com que 154 pessoas morressem. O mais grave deles? Em minha opinião um avião que não seguia um plano de vôo pré-determinado. Quando ocorre um acidente de carro e um dos dois veículos está na contra-mão, de quem é a culpa? Certamente daquele que andava na contra-mão… Situação idêntica é verificada no caso em foco.

Um motorista de carro poderia alegar que um buraco na pista fez com que desviasse para a contra-mão. Neste caso a culpa seria do Estado, que não teria dado a devida manutenção à rodovia. Ou ainda de "São Pedro", que teria deixado que chovesse muito naquele trecho de rodovia. Haverá também quem procure dizer que a culpa é dos caminhoneiros que transitam na mesma rodovia com sua carga excessiva, desgastando o asfalto. Outros dirão que é do Governo Federal, que tem incentivado a exportação e em função disto os agricultores plantam mais e mais e exportam em igual quantidade. Mas existe um fato: naquele momento, vindo outro veículo na direção contrária, aquele carro não poderia andar na contra-mão. E foi isto que ocasionou o acidente.

No caso do avião da Gol, ressalvados alguns detalhes, temos situação idêntica. Um avião Embraer Legacy estava fora do curso pré-determinado (ou da altitude pré-determinada, para os puristas), tendo chocado com o avião Boeing que estava no seu curso e altitudes corretos. A busca de qualquer responsabilidade adicional é acessória!

O fato, porém, traz à discussão uma série de problemas e irregularidades encontradas no controle de tráfego aéreo brasileiro. Verifica-se a necessidade de aquisição de mais radares, mais rádios e principalmente da contratação de mais seres humanos.

Uma coisa, entretanto, não pode ser esquecida: NÃO SE DEVE CONFIAR CEGAMENTE NOS EQUIPAMENTOS. Possivelmente este e outros acidentes não teriam acontecido caso houvesse uma desconfiança maior nas máquinas. É uma pena que de todas as discussões até então existentes este assunto não tenha entrado em pauta.

Falo isto, mais uma vez, como homem de tecnologia. A tecnologia é ótima! Mas é falível! Nada substitui o ser humano…

Sérgio Scarpelli: Carta a Joe Sharkey do New York Times

Reproduzo abaixo carta enviada por Sérgio Scarpelli ao jornalista Joe Sharkey, do jornal americano New York Times.
Meu caro Joe Sharkey

Como o senhor tem coragem de afirmar que o sistema de controle aéreo brasileiro não presta e não é confiável?

Justo o senhor que vive na cidade de Nova York que foi testemunha de uma das maiores burradas no tráfego aéreo da história da humanidade.

Foi em sua Nova York, no seu infalível Estados Unidos, que dois Boeings 767s entraram nas Torres Gêmeas sem que nenhuma providência fosse tomada. Ainda o primeiro vai lá, ninguém podia imaginar aquela loucura. Mas o segundo atingiu a outra torre "muitos" minutos depois. E o que o seu magnífico sistema de tráfego aéreo fez para evitar isso?

O pior de tudo é que outro Boeing conseguiu invadir sua capital e atingir o prédio do "Pentágono" sem que nada fosse feito. E um quarto avião iria atingir o Capitólio se não fossem os supostos bravos passageiros.

Diga meu amigo, o sistema de controle aéreo brasileiro é que é precário ? O brasileiro é que é incompetente?

Que americano se acha dono do mundo e da verdade isso todos já sabem. Mas o senhor que é uma pessoa culta e que trabalha para um jornal como New York Times, deveria ao menos ter bom senso. Deveria ter aproveitado a chance de ficar quieto.

Ainda mais depois que foi abençoado com um milagre e escapou da morte por pouco. Será que nem isso fez seu coração americano amolecer não é mesmo?

Quer dizer que o Brasil é selvagem e você teme pela integridade física dos seus pilotos? Lembre-se meu amigo que são vocês, comedores de hamburguers, que matam pessoas adoidado no Iraque só pra garantir gasolina em seus carros. E não a gente.

São vocês que nos obrigam a tirar os sapatos e cintos  numa situação quase humilhante nos seus aeroportos, graças a incompetência do seu sistema de segurança que foi incapaz de detectar  dezenas de terroristas armados com facas entrando em seus aviões.

Faça um favor a todos nós brasileiros, não volte mais pra cá.

Fique aí na sua terra, fazendo sua guerra, falando besteira e votando no Bush.

Atenciosamente,

Sérgio Scarpelli

Redator da TBWA e premiado nos principais festivais de propaganda - nacionais e internacionais. Também produz e apresenta o programa Jazzmasters na Rádio Eldorado FM (92,9 MHz - SP) e rede.

Revista Veja e o acidente do vôo 1907

Sandro Araújo

A revista Veja desta semana presta um desserviço enorme à comunicação de massa no nosso país. Ao relatar o acidente do vôo 1907, apresenta versão claramente distorcida dos fatos. Uma leitura da matéria leva à conclusão de que o acidente ocorreu mais por falha do controle de vôo que pela seqüência de falhas da tripulação do avião Legacy: basta lembrar que o transponder do avião estava desligado e o plano de vôo não foi seguido, já que o avião estava em altitude diferente da prevista.

Em determinado trecho da reportagem, a revista Veja utiliza a expressão "minutos depois de o Legacy passar por Brasília, seu transponder se tornou inoperante", dando a entender que a tal inoperância teria sido por falha de equipamento e não por ação humana. Coloca ainda a culpa no controle de vôo, ao citar que "o piloto do Legacy, provavelmente, entendeu que não precisava entrar em contato com o controle aéreo ao passar por Brasília – se sua altitude fosse inadequada, ele seria alertado imediatamente pelo rádio" e mais: "houve um problema de comunicação entre o piloto e o controle".

Leia a matéria no sítio da revista e tire suas conclusões.

O desenvolvimento está nos detalhes

Reproduzo abaixo, texto de Claudio de Moura Castro, publicado na Revista Veja em 20/05/1998, com agradecimentos à amiga Magaly Oliveira, pela sugestão.

O desenvolvimento está nos detalhes

por Claudio de Moura Castro

Dizia Schumpeter no princípio deste século que desenvolvimento econômico não é a nobreza ter meias de seda, mas os pobres também as terem. Mas na revolução industrial que ele viu bastavam líderes iluminados, pois o desenvolvimento era fruto de grandes iniciativas, gerando vendavais de mudança. Para o povaréu, bastavam algumas destrezas manuais.

Mudaram a economia e os processos produtivos. Hoje, o desenvolvimento econômico depende cada vez mais do que fazem os pequenos e os humildes. Do meu caderno de viagem reproduzo algumas notas:

A água não flui no ralo do banheiro do hotel. Com a mesma tecnologia, os canos da Suíça sempre funcionam. Por que o pedreiro não limpou o cimento que caiu sobre o azulejo, na época da construção do banheiro?

Por que, ao pintar a parede, o pintor não pôs um jornal no chão, para impedir que este fosse também pintado?

Na reunião marcada para as 10, metade chega na hora, mas é preciso esperar o último retardatário, que chega às 10h30. Quanto vale o tempo dos que chegaram mais cedo?

Pela porta entreaberta da cozinha do restaurante vejo uma jovem abrir uma lata com a ponta de uma faca usando o cabo da outra como martelo. Quanto custa um abridor?

O ângulo reto na Alemanha, onde foi feito o esquadro, tem exatamente 90 graus. Por que o ângulo da esquadria feita não tem também 90 graus?

Tampouco deveria haver fresta no canto da porta. Desmarquei meu compromisso para esperar o consertador da máquina de lavar, e ele não veio. Na França, deixava a porta aberta para que entrasse, fizesse o conserto e mandasse depois a conta pelo correio.

Se ninguém está olhando, o peão pára de trabalhar. Portanto, haverá um capataz tomando conta e subtraindo do que poderia ser o seu salário.

Perguntei ao guarda, na praça principal, onde estavam as famosas ruínas maias. Não sabia. Perguntei à funcionária do labiríntico aeroporto de Frankfurt quanto tempo para o portão F26: três minutos e meio.

Acabou a cerveja, lá se vai a lata pela janela. Mas o excursionista suíço guarda a lata vazia na mochila para jogar no primeiro cesto de lixo disponível. Quem tem mais recursos para pagar o catador de lixo?

A 4.500 metros de altitude, nos Andes, encontra-se a caçamba cheia de minério de estanho com outra vindo na direção oposta. Solução: os mineiros levantam uma delas na unha e a tiram da linha, para poder passar a outra. Deve haver uma tecnologia melhor.

Buzina o motorista indignado. O preço do seu desabafo sonoro é o desconforto de dezenas de pessoas ao redor.

O peão do meu amigo Barreto matou todas as suas vacas, pois pensou que a dose era um vidro de remédio, em vez de uma colher.

Explicava-me o chofer de táxi em Cingapura que atrair turistas é fácil, o difícil é fazer com que voltem. Fiquei pensando nos nossos.

Quando pensamos nos países avançados, as imagens que nos vêm à cabeça são as obras monumentais, as viagens à Lua, os prêmios Nobel, os salários altos e por aí afora. Mas deixamos de observar o pequeno, o detalhe, como a gente comum cuida do seu cotidiano.

Temos alguns líderes educados e com visão, nas empresas, no governo e na ciência. Não estudaram em universidades piores nem são menos preparados do que os líderes dos países mais ricos. A diferença não está neles, mas no ato cotidiano do trabalhador, do pequeno funcionário. É aí onde se originam e perpetuam a diferença de produtividade e a qualidade de vida. Um país é atrasado pelo somatório dos pequenos atos malfeitos, matados, improvisados, impensados e de horizonte curto.

Mas, obviamente, não podemos culpar nosso povo pelo que lhe falta em educação e civismo. Os brasileiros vivem no mundo onde os que podem um pouco mais toleram uma péssima educação. Somos nós os culpados. Ao pensar nas maravilhas dos países ricos, devemos entender que a grande diferença não está nos planos grandiosos, na engenharia mirabolante, mas no comportamento cotidiano dos que estão na base da sociedade. Se não criarmos as condições para que esses comportamentos mudem, nada feito. Viveremos dos sonhos do país do futuro.

Para refletir (2)

Um amigo me envia o Decálogo de Lenin. Vale a pena ler e refletir. Saliento que não se trata de obra original: é, na verdade, um texto apócrifo atribuído ao falecido lider soviético. Seu conteúdo, entretanto, é "cabuloso":

Os 10 passos para tomada do PODER

DECÁLOGO DE LENIN

Em 1913, Lênin escreveu o "Decálogo" que apresentava ações táticas para a tomada do Poder.

a) Qualquer semelhança com os dias de hoje, não é mera coincidência.

b) Tendo a História se encarregado de pôr fim à questão ideológica, a meditação dos ideais, então preconizada, poderá revelar assombrosas semelhanças nos dias de hoje, senão vejamos:

  1. Corrompa a juventude e dê-lhe liberdade sexual;
  2. Infiltre e depois controle todos os veículos de comunicação de massa;
  3. Divida a população em grupos antagônicos, incitando-os a discussões sobre assuntos sociais;
  4. Destrua a confiança do povo em seus líderes;
  5. Fale sempre sobre Democracia e em Estado de Direito, mas, tão logo haja oportunidade, assuma o Poder sem nenhum escrúpulo;
  6. Colabore para o esbanjamento do dinheiro público; coloque em descrédito a imagem do País, especialmente no exterior e provoque o pânico e o desassossego na população por meio da inflação;
  7. Promova greves, mesmo ilegais, nas indústrias vitais do País;
  8. Promova distúrbios e contribua para que as autoridades constituídas não as coíbam;
  9. Contribua para a derrocada dos valores morais, da honestidade e da crença nas promessas dos governantes. Nossos parlamentares infiltrados nos partidos democráticos devem acusar os não-comunistas, obrigando-os, sem pena de expô-los ao ridículo, a votar somente no que for de interesse da causa socialista;
  10. Procure catalogar todos aqueles que possuam armas de fogo, para que elas sejam confiscadas no momento oportuno, tornando impossível qualquer resistência à causa.

Trololó tucano

André Petry - Veja

“Cá para nós: os tucanos governam São Paulo há doze anos, governaram o Brasil por oito anos e Lula, há quatro no poder, é o único culpado pelo caos?”

Dá gosto ver como os tucanos reagem quando a vaca vai para o brejo. São Paulo virou show da bandidagem, e Geraldo Alckmin, governador do estado até quatro meses atrás, percorreu um calvário de explicações: começou a semana falando em “números europeus” e encerrou insinuando que o PT pode estar por trás das ações criminosas do PCC. Vale a pena acompanhar a evolução:

  • Domingo, dia 9. Ao embarcar para a Europa, Alckmin não enxerga crise alguma, diz que os presídios paulistas estão sob controle e que o índice de fugas das penitenciárias do estado é de apenas 0,13%, “um número europeu”.
  • Segunda, dia 10. Já na Europa, Alckmin descobre a América, vislumbra um pedacinho de crise e faz um diagnóstico ululante: “Nosso problema são os presos, temos 140.000 pessoas em presídios, inclusive líderes de facções criminosas”.
  • Quarta-feira, dia 12. De volta a São Paulo, Alckmin vai mais longe e explica que a nova onda de atentados do PCC decorre de um acerto do governo paulista. “É reação a uma ação da polícia, que prendeu um dos grandes traficantes, líder do crime organizado no estado.” (Referia-se ao bandido Emivaldo Silva Santos, de 30 anos, preso no dia anterior.) No mesmo dia, o senador Jorge Bornhausen, a Bia Falcão da política nacional, diz suspeitar que o PT está por trás das ações do PCC. Por quê? Porque as ações criminosas recrudesceram no dia em que uma pesquisa eleitoral apontava crescimento de Alckmin…
  • Quinta-feira, dia 13. Alckmin finalmente enxerga uma crise importante, mas agora acha que Bornhausen pode ter razão e tudo muda: “Estranhas a forma como a coisa ocorre, a época em que ocorre, a maneira como os atos são desencadeados”.

Como assim? A coisa não ocorre porque “nosso problema são os 140.000 presos, inclusive líderes de facções criminosas”? A época em que a coisa ocorre não é por causa da “ação da polícia, que prendeu um dos grandes traficantes, líder do crime organizado no estado”?

O episódio é uma demonstração constrangedora do esforço dos tucanos para se eximirem de responsabilidade numa crise em que estão cobertos de responsabilidade. O tucano José Serra, virtualmente eleito para o governo paulista, passou a semana dizendo que Lula era o responsável pela crise em São Paulo e que, em vez de tomar as providências necessárias, optou por fazer “demagogia e trololó”. Serra até encampou, com mais ênfase que Alckmin, a tese de que o PT anda dando a linha para o PCC…

Lula não fez nada na área da segurança pública. Na campanha de 2002, disse que seria sua prioridade, apresentou um programa bonitão e, depois de eleito, engavetou todas as letras. Prometeu que faria cinco presídios federais de segurança máxima. Se conseguir um milagre, encerra o mandato com dois. Mas, cá para nós: os tucanos governam São Paulo há doze anos, governaram o Brasil por oito anos e Lula, há quatro no poder, é o único culpado pelo caos?

Ora, senhores: dizer isso é combinar demagogia com trololó.

Alckmin, Lula e as formigas da Guiana

Por Élio Gaspari

Na noite em que chegou a 45 o número de policiais e agentes penitenciários assassinados em São Paulo em menos de dois meses, o candidato do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin, disse que enfrentará a crise da segurança criando um conselho. Mais um. Logo Alckmin, legatário do mingau em que se transformou a segurança dos agentes da ordem pública no Estado que governou por cinco anos.

Para se ter uma idéia do que significam 45 mortos em 60 dias, em toda a década de 1920, quando o crime organizado parecia controlar Nova York, morreram 57 policiais. Número inédito, nunca igualado. (O "choque de gestão" de Alckmin arrisca derrubar essa marca antes de outubro.)

A fala pausada, numérica e oca do grão-tucano é apenas um dos aspectos da ruína. O outro é o triunfalismo de Luís 15, na versão Inácio: "Antes de mim, o dilúvio. Depois de mim, outro dilúvio". Alckmin não quer explicar por que sua política de gatilho rápido resultou em insegurança. Lula quer ficar a léguas de distância do tema. É preferível entender que o governador Cláudio Lembo tem razão: ou o andar de cima se mexe, ou o que vai mal haverá de piorar. Ou há segurança para todo mundo, ou não há para ninguém.

No mercado financeiro existe uma expressão banal para designar multidões que correm numa direção, sem saber direito o porquê. É o "efeito manada". Pensando bem, a manada pode ser sábia. Quem fugiu do dólar de R$ 1,20 da ekipekonômica tucana de bobo não tinha nada.

O que o andar de cima nacional faz em matéria de segurança parece mais com as formigas de Kartabo, na floresta da Guiana. De repente, uma delas perde o caminho e vai adiante. As outras, disciplinadas, vão atrás. Quando um naturalista observou esse fenômeno, elas percorriam um círculo com 365 metros de extensão. Levavam duas horas e meia para completá-lo, recomeçando-o ao longo de todo um dia. A maioria morria. A manada vai atropeladamente para não se sabe onde. As formigas da Guiana vão calmamente para onde estavam.

Outro dia o "Jornal Nacional" mostrou a família de um agente penitenciário abandonando uma casa pobre, de poucos móveis, porque a bandidagem deu-lhe um prazo, ao fim do qual iria matá-la. Causou a mesma perplexidade que a desclassificação da Arábia Saudita.

Não ocorre ao andar de cima mobilizar-se para mostrar aos bandidos que nunca mais uma família de um agente da ordem será desestruturada por falta de apoio. De quem? Das guildas patronais que gastam os tubos em pesquisas eleitorais, dos bancos que fazem obras sociais nos espaços nobres da publicidade, dos magnatas que andam com o papagaio do Estado mínimo no ombro. Enfim, de quem achar que não lhe fica bem ajeitar o meião quando Zidane centra para Henry.

O que falta em matéria de segurança é raça. Alguém que diga: a família do agente penitenciário que foi obrigada a deixar sua casa recebeu um apartamento e nele viverá o tempo que for necessário. Mais: as famílias de servidores públicos mortos pelos bandidos terão suas dívidas imobiliárias quitadas e seus filhos receberão bolsas de estudo até o último ano do curso superior. É complicado de fazer? Sem dúvida, por isso a formiga número 2 foi atrás da número 1.