Sou um homem da tecnologia. Já se vão 20 anos que lido com os computadores. Mas existe um princípio que sempre levei em conta ao lidar com estas máquinas: elas são falíveis!
Uma das primeiras demonstrações da falibilidade dos computadores foi o episódio em que uma simples mariposa – como tantas que buscavam abrigo e calor na contemplação das válvulas dos primeiros computadores – morreu torrada, causando erros nos cálculos realizados. Pronto: o mundo ganhou uma das primeiras palavras do jargão informático: o BUG – inseto, em inglês. O processo de correção de erros foi batizado de "DEBUG". Por estas terras, houve quem utilizasse a palavra "depurar" para designar o mesmo processo. E o erro? Foi batizado como "erro", "bug" ou simplesmente "pau": quem nunca ouviu "deu pau"? Pois é…
O tema da vez, como nos últimos 60 dias, é o "pau" que deu no controle de vôo brasileiro em seguida aos acontecimentos que ocasionaram a queda do avião Boeing 737-300 da empresa Gol, atingido em pleno ar por uma aeronave de menor porte, um Embraer Legacy. Avião bom este Embraer: derrubou um Boeing e pousou quase ileso! Para quem não se lembra, a Embraer é uma empresa brasileira e foi estatal até bem pouco tempo: mais, a aeronáutica ainda mantém 25% das ações da empresa.
Há quem diga, muitas vezes em tom jocoso, que a fila de encomendas do Legacy triplicou depois do episódio. Inúmeros executivos mundo afora teriam ficado entusiasmados com a segurança da aeronave! Agora digo eu: onde há fumaça, há fogo…
Mas prefiro ater-me a um tema até então pouco discutido: qual a participação dos computadores e dos demais equipamentos eletrônicos na tragédia? Dias atrás uma pane nos equipamentos do CINDACTA I, em Brasília, causou aquele que é considerado o maior caos do transporte aéreo brasileiro em todos os tempos. E mais: faltava um técnico tupiniquim que pudesse dar a devida manutenção no mesmo. Mais uma vez, "deu pau" ! E salve o "bug" !!!
De volta ao tema. Pergunta número um: SE os pilotos do avião Legacy tivessem cumprido o plano de vôo, teria acontecido o acidente? Certamente não, uma vez que o plano de vôo previa que após a passagem em Brasília o mesmo mudaria de altitude. O plano não foi seguido… Pergunta número dois: SE os controladores de vôo em Brasília não houvessem confiado nos radares e no famigerado "transponder", agindo de maneira pró-ativa e verificando com os pilotos do avião Legacy a troca de altitude, teria acontecido o acidente? Novamente a resposta é não! Certos nesta história, infelizmente, apenas os pilotos e os passageiros do vôo 1907 da Gol que, cumprindo o plano de vôo previamente discutido, voavam em altitude coerente com o mesmo.
Atrevo-me a comentar sobre alguns outros equipamentos existentes no controle de tráfego e nos aviões. Confesso que não sou especialista no assunto mas, como tantos brasileiros, sofremos uma avalanche de informações inerentes ao tema nos últimos dias.
Os aviões possuem um outro equipamento que permite identificar a aproximação de algum objeto. É um sistema "anti-colisão". Aparentemente o mesmo não teria disparado nos segundos que antecederam o toque em pleno vôo. Outra hipótese é a de que, tendo disparado, não teria havido tempo hábil para uma ação efetiva dos pilotos do Boeing.
Quando estamos dirigindo um carro, seja numa rua, seja numa rodovia, geralmente temos atenção redobrada. Um simples discuido, uma simples tirada da visão para o lado e um acidente pode acontecer. No caso de um avião moderno, como o Boeing e o próprio Legacy, temos dezenas, centenas de equipamentos que auxiliam o trabalho dos pilotos. Existe até mesmo um piloto automático! Não foi o que houve, mas imagino a cena: após a estabilização do avião e verificação de detalhes como o curso e a altitude, o comandante ativa o piloto automático e vira-se alegremente para o co-piloto e começam a contar piadas ou discutir amenidades… Se algo ocorresse? Certamente uma série de alarmes dispararia na cabine. O sistema anti-colisão é apenas um deles! Após este disparo, bastaria ao comandante retomar o controle da aeronave.
O fato é que confiamos dia após dia, mais e mais, nos computadores, nos equipamentos. Não nos lembramos de que eles próprios têm suas limitações. Ainda: são projetados e programados por seres humanos – estes últimos sujeitos a todo o tipo de falibilidade. Basta lembrar que, logo após o acidente, tornou-se público que "transponders" do mesmo fabricante daquele existente na aeronave da Embraer possuíam erro de programação que faziam com que os mesmos desligassem voluntariamente. O ser humano é fundamental! Não o fosse já viajaríamos hoje em aviões totalmente automatizados, sem pilotos ou co-pilotos… O próprio piloto automático somente é acionado, como disse, após a estabilização da aeronave.
E o controle de tráfego? Teriam também confiado nos equipamentos? Certamente sim. A rotina de um controlador de vôo, estressante, é o monitoramento de uma tela de radar que possui um número determinado de aviões, conferindo o curso, a altitude e outras informações referentes aos mesmos. Com o caminhar das investigações descobriu-se que um dos controladores inferiu que a altitude do avião Legacy seria aquela constante do plano de vôo, sem no entanto confirmar a informação com o piloto da aeronave. Mais uma vez, confiou-se no equipamento. Como se confiou que os procedimentos seriam seguidos pelos pilotos estadounidenses.
Não quero aqui isentar uns ou acusar outros. Uma seqüência de erros fez com que 154 pessoas morressem. O mais grave deles? Em minha opinião um avião que não seguia um plano de vôo pré-determinado. Quando ocorre um acidente de carro e um dos dois veículos está na contra-mão, de quem é a culpa? Certamente daquele que andava na contra-mão… Situação idêntica é verificada no caso em foco.
Um motorista de carro poderia alegar que um buraco na pista fez com que desviasse para a contra-mão. Neste caso a culpa seria do Estado, que não teria dado a devida manutenção à rodovia. Ou ainda de "São Pedro", que teria deixado que chovesse muito naquele trecho de rodovia. Haverá também quem procure dizer que a culpa é dos caminhoneiros que transitam na mesma rodovia com sua carga excessiva, desgastando o asfalto. Outros dirão que é do Governo Federal, que tem incentivado a exportação e em função disto os agricultores plantam mais e mais e exportam em igual quantidade. Mas existe um fato: naquele momento, vind
o outro veículo na direção contrária, aquele carro não poderia andar na contra-mão. E foi isto que ocasionou o acidente.
No caso do avião da Gol, ressalvados alguns detalhes, temos situação idêntica. Um avião Embraer Legacy estava fora do curso pré-determinado (ou da altitude pré-determinada, para os puristas), tendo chocado com o avião Boeing que estava no seu curso e altitudes corretos. A busca de qualquer responsabilidade adicional é acessória!
O fato, porém, traz à discussão uma série de problemas e irregularidades encontradas no controle de tráfego aéreo brasileiro. Verifica-se a necessidade de aquisição de mais radares, mais rádios e principalmente da contratação de mais seres humanos.
Uma coisa, entretanto, não pode ser esquecida: NÃO SE DEVE CONFIAR CEGAMENTE NOS EQUIPAMENTOS. Possivelmente este e outros acidentes não teriam acontecido caso houvesse uma desconfiança maior nas máquinas. É uma pena que de todas as discussões até então existentes este assunto não tenha entrado em pauta.
Falo isto, mais uma vez, como homem de tecnologia. A tecnologia é ótima! Mas é falível! Nada substitui o ser humano…


Excelente!
Ficou muito bom!
Gostei.
[...] que temos por ela nestes tempos. Publicado na categoría Curiosidades
[...] Update: Achei um artigo legal sobre o tema aqui : Uma crônica do Apagão Aéreo [...]
Ola Sandro, ótimo texto.
[]´s
Alexandro
[...] Leia mais sobre o assunto no artigo "Deu Pau – Uma crônica do Apagão Aéreo", publicada neste blog em dezembro de [...]
Olá!
Parabéns !Gostei muito dessa matéria!
É show!!!
[...] Em artigo deste Blog, "Deu Pau – Uma crônica do apagão aéreo" já comentei sobre a confiança cega nos [...]