Multidão furiosa julgou que o missionário fosse australiano; violência no Timor explodiu em março
Australianos são hostilizados no país desde que soldado matou um civil timorense; eles são maioria na força de paz da ONU
Thaiza Castilho - Dili
Todas as noites de domingo, os missionários da Assembléia de Deus celebram o culto na casa de Sheila e Xavier, casal de evangélicos que vive em Timor Leste. Na próxima semana, não haverá culto. No último domingo, Edgard Gonçalves Brito, 27, sua irmã Elizama e mais três timorenses retornavam de carro para casa após o culto quando foram atacados no bairro de Balide, onde moravam.
O carro em que estavam foi cercado por um grupo de jovens armados com pedras e facas, que gritavam "não gostamos de australianos", conta a irmã. Os missionários tentaram argumentar que eram brasileiros, mas, quando Edgard desceu o vidro do carro, para conversar, foi atingido no braço por um dos timorenses, com uma espada de samurai. Outro golpe atingiu o pescoço do missionário, que fugiu, arrancando em direção à casa de amigos que também vivem na região.
"Quando ele perdeu o controle do volante, o carro estava em baixa velocidade, e a irmã saiu aos gritos pedindo socorro aos vizinhos, que correram para ajudar", conta Evilásio de Oliveira, 33, missionário da Jocum (Jovens com uma Missão), e amigo da vítima, reproduzindo o relato da irmã de Edgard.
Ainda ferido, Edgard foi levado ao hospital Guido Valadares, mas a passagem estava impedida devido a conflitos na região. Foi transportado até a clínica do bairro Pité, mas não resistiu aos ferimentos e morreu.
Há menos de um mês, um soldado australiano matou com um tiro um timorense num confronto no aeroporto da capital. Os 2.700 soldados da missão da ONU, australianos na maioria, não têm permissão para disparar contra cidadãos do Timor -daí a revolta provocada pelo caso.
Edgard Brito era de Belo Horizonte e morava havia quase dois anos em Timor Leste, onde dava aulas de português para crianças e fundou a pré-escola de Bicali, em Viqueque, interior do país. "Ele marcou a vida de todos nós, era uma pessoa que estava sempre de bom humor. Para ele, todos eram iguais -essa foi a mensagem mais importante que ele deixou", diz Evilásio.
Autoridades policiais já iniciaram as investigações do assassinato, mas, até o momento, ninguém foi preso. O premiê, José Ramos-Horta, declarou que o trabalho do brasileiro era muito respeitado e um forte símbolo da amizade entre Brasil e Timor Leste. "O seu amor pelo povo de Timor permanecerá como um exemplo para nós. Damos graças a Deus pela vida e obra deste missionário a serviço da sua fé em prol do povo timorense", disse.
O embaixador do Brasil no país, Antonio Souza e Silva, esteve no hospital com a irmã do missionário resolvendo os trâmites legais para o traslado do corpo até o Brasil.
Ondas de violência
O missionário é a primeira vítima estrangeira da violência generalizada que assola o país desde março passado.
A crise surgiu quando quase 600 dos 1.400 militares timorenses se rebelaram e pediram que o então premiê Mari Alkatiri mudasse os critérios de promoção. Alkatiri era acusado de discriminar pessoas originárias de regiões suspeitas de simpatizarem com a Indonésia, o antigo ocupante de Timor Leste.
Alkatiri não atendeu a reivindicação e demitiu os grevistas. Com a polícia rachada e em crise, o país caiu nas mãos de saqueadores, gangues comuns e grupos pró-Indonésia aproveitaram para praticar atentados.
Em dois meses de violência, 37 civis morreram e cerca de 145 mil abandonaram suas casas. Independente desde 2002, Timor Leste tem 1 milhão de habitantes. Em junho, enfraquecido, o premiê renunciou e Ramos-Horta assumiu em seu lugar, acalmando os ânimos. Não foi o suficiente para a pacificação total.
Publicado na Folha de São Paulo