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Vida e morte de um país europeu a que chamaram Jugoslávia

Por Luís Naves – Diário de Notícias (Portugal)

O referendo de domingo, no Montenegro, promete ser o penúltimo episódio do longo processo de dissolução da Jugoslávia, iniciado no final da década de 80, e que provocou centenas de milhares de mortos. Tudo indica que os eleitores do pequeno território balcânico se preparam para optar pela separação de Sérvia e Montenegro. Para terminar o drama faltará ainda um derradeiro episódio: a definição do estatuto do Kosovo, tema em negociação e que levanta questões delicadas.

Não é fácil entender o colapso da Jugoslávia, de tal forma são complexas e até contraditórias as forças que levaram à agonia daquele país. As explicações também diferem, pois têm uma dose de política, consoante o ponto de vista de quem escreve a História.

A Jugoslávia existiu por duas vezes e entrou em colapso em cada uma destas experiências. A inicial emergiu das ruínas da Primeira Guerra Mundial e resultou num reino dominado pela Sérvia, que tentava aglutinar os eslavos do sul. Tratava-se de uma concepção intelectual que nunca funcionou, pois não levara em conta as diferenças entre os povos alvo da junção. Além da Sérvia, cuja resistência entusiasmara os vencedores do conflito mundial, o novo país passou a dominar territórios que tinham pertencido ao Império Austro-húngaro. Havia seis religiões e numerosas minorias não eslavas (judeus, ciganos, húngaros, italianos ou gregos, entre outros).

Para as potências europeias, nos anos 20 e 30, a Jugoslávia era menos forte do que pensavam os seus aliados e mais fraca do que imaginavam os inimigos. A Itália via o novo país de forma amarga, pois certas áreas tinham-lhe sido prometidas em 1915. Este ressentimento alimentou a emergência do fascismo.

O reino eslavo do sul era parte da Pequena Entente (ideia francesa) que deveria servir de contrapeso ao reaparecimento da Alemanha, mas Hitler conseguiu minar a aliança de pequenas potências, jogando com as suas divisões internas. No caso jugoslavo, os principais conflitos eram entre croatas e sérvios ou entre sérvios e albaneses. Em Outubro de 1934, o rei Alexandre foi assassinado em Marselha, produzindo uma crise crescente nos anos seguintes.

A Segunda Guerra Mundial foi particularmente violenta no espaço jugoslavo e os ressentimentos nacionais tiveram um papel fundamental. A vitória dos comunistas liderados por Josip Broz – Tito – deu origem a uma segunda tentativa, também ditatorial, de formar uma Jugoslávia coerente. Até à morte do Presidente, em 1980, este foi um dos países mais influentes do bloco socialista e tentou uma via semi-independente de Moscovo, que lhe permitiu um razoável êxito económico, que resultou em estabilidade política.

Apesar do regime de partido único, os dirigentes das repúblicas nunca abdicaram da sua dose de nacionalismo. As tensões étnicas eram já visíveis nos anos 60 e 70, mas o país tinha uma larga faixa populacional multiétnica e havia um número cada vez maior de casamentos mistos.

O colapso começou a acelerar nos anos 80. O separatismo tem uma origem histórica, mas também razões ligadas ao nacionalismo económico e a frustrações alimentadas por políticos inseguros. A Federação Jugoslava consistia numa experiência que envolvia a substancial integração de várias economias regionais; o norte, mais rico, tinha acesso a mão-de-obra barata do sul, mas protestava contra o que considerava ser o esforço financeiro desequilibrado de sustentar zonas pobres. A complexidade étnica e religiosa é certamente um dos factores da desagregação, mas há historiadores que sublinham o efeito das diferenças económicas entre as regiões. Neste ponto, persiste um paradoxo: as mesmas regiões que se separaram pela guerra querem agora aderir a um espaço europeu, a UE, onde terão de aceitar regras que os obrigam a integração que não conseguiram concretizar por duas vezes.

A década do horror

A desagregação foi um penoso processo que ainda não terminou, destruindo não apenas um país, mas muitas famílias. Talvez nunca se conheça o número total de mortos, que alguns estimam em mais de 200 mil.

A Jugoslávia começou a fragmentar-se segundo linhas étnicas, na mesma altura em que desaparecia o bloco socialista e ruía o Muro de Berlim. Mas ninguém podia prever os horrores da década de 90. Quatro repúblicas (Eslovénia, Croácia, Bósnia-Herzegovina e Macedónia) foram reconhecidas internacionalmente em 1992, após episódios sangrentos durante a separação (nos dois primeiros casos).

A República Federal da Jugoslávia, confinada ao actual espaço e liderada por Slobodan Milosevic, tentou aglutinar territórios onde existia predomínio étnico sérvio. A ideia era criar a "Grande Sérvia", o que deu origem ao terrível conflito da Bósnia, no qual todas as partes (sérvios, muçulmanos e croatas) cometeram atrocidades. A Jugoslávia foi afastada da ONU e a guerra só terminou após difíceis negociações, com o Acordo de Dayton, em 1995.

Em 1998, reacendeu-se o conflito no Kosovo, um território sérvio onde os albaneses estão em maioria. A expulsão de albaneses pelas autoridades sérvias assemelhava-se às limpezas étnicas da Bósnia e isso provocou uma intervenção da NATO, que incluiu bombardeamentos a Belgrado. Milosevic caiu em 2000, tendo sido detido e enviado para um tribunal internacional, em Haia. Foi na Holanda que o dirigente nacionalista faleceu, este ano, num dramático episódio que apenas acentuou os poderosos ressentimentos que ainda pairam naquela região da Europa.

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