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Timor Leste: Diário de Guerra

Por Sandro Araújo.

Depois de algum tempo longe da grande mídia, o Timor Leste voltou às principais manchetes devido ao clima de tensão vivido internamente.

Durante o ano de 2005 tive a oportunidade de trabalhar naquele país, através de cooperação entre o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), junto ao Parlamento Nacional.

Naquela oportunidade, pude ver um país em construção (reconstrução?), com literalmente tudo a ser feito. Uma população extremamente carente: de comida, de educação, mesmo de sonhos.

Foi neste período que adotei como lema uma linda frase de Cecília Meirelles: "Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda."

Durante o período de ocupação pela Indonésia, em que pese toda a imposição da cultura Javanesa e porque não muçulmana, ainda pela repressão, o Timor Leste era uma província alinhada com a maior parte do país: muita pobreza mas uma certa estabilidade econômica. É como se nivelássemos por baixo a população.

A Indonésia construiu boa parte da infraestrutura do país. Ao término da colonização portuguesa, o Timor Leste era pouco mais que um enorme conjunto de tribos sem comunicação. Pena que, em função do levante que culminou com a "restauração" da independência do país em 1999, grande parte desta infraestrutura tenha sido destruída pelas "milícias" pró-Indonésia.

Voltando à situação atual. O Timor Leste tem uma importância geo-estratégica muito grande. Além disto, possui razoáveis reservas de petróleo, estimadas em mais de 20 bilhões de dólares para os próximos 20 anos. Imagine "distribuir" 1 bilhão de dólares para uma população de pouco mais de 1 milhão de pessoas: seriam 1000 dólares per capita durante 20 anos. Muito, mas muito mais que a renda atual da população.

Mas o governo montou uma estratégia para aplicação dos recursos oriundos do petróleo que privilegia a "garantia" das próximas gerações: partem do princípio de que, se todo o recurso for utilizado agora as futuras gerações continuarão na pobreza. Os royalties oriundos das concessões do petróleo estão sendo em grande parte depositados em um Fundo do Petróleo, regulamentado pelo Parlamento Nacional e sancionado pelo Presidente da República.

O problema é que ainda tem gente, e muita gente, passando fome: morrendo de fome. Na minha opinião, pouco adianta assegurar as futuras gerações se eventualmente sequer elas existirão: os pais estão morrendo… Deve-se encontrar um ponto de equilíbrio entre o quanto deve ser aplicado agora em segurança alimentar, educação e outras necessidades básicas e quanto deverá ser poupado em nome das futuras gerações.

Enquanto isto a insatisfação é enorme: há mesmo quem prefira os tempos indonésios, nos quais a fome, se existia, era bem menor. Mal comparando, é como muitos brasileiros que dizem que "eram felizes e não sabiam", quando fazem remissão ao regime militar pós-1964.

Boa parte do que está acontecendo agora, diferentemente do que a mídia tem anunciado (e mesmo consta no relato ao final deste artigo) deve-se à constatação, pela população, que uma elite tem se formado no país: enquanto 99% da população passa fome e vive uma vida pior que nos tempos de dominação indonésia, os demais 1% estão literalmente "mamando nas tetas do governo".

Daí para uma guerra civil, é um rastilho de pólvora.

Como sempre, o povo vê no representante maior do executivo a raiz de todos os males: a culpa é sempre do governo… Sem fazer apologia para qualquer das partes, o Primeiro Ministro Mari Alkatiri paga o preço por ser o chefe de governo. Por outro lado, nada mais que isto para simbolizar a tal elite que está se formando. E pensar que no último congresso da Fretilin, partido majoritário, ele foi reconduzido como Secretário-Geral e será virtualmente o próximo chefe de governo a partir das eleições de 2007, já que a Fretilin deverá ter outra votação arrasadora. Membros da Fretilin não têm pudores em dizer que o projeto de poder do partido é para os próximos 50 anos… Compare esta situação às ditaduras implantadas na África e veja a raiz da insatisfação popular.

Quando saí do Timor as coisas estavam começando a se desestruturar. Em 2005 um protesto iniciado pela Igreja Católica durou cerca de 20 dias. Foi uma manifestação pacífica, mas que continha uma quantidade enorme de pessoas e que não se sabe ao certo quem foi o financiador dos fiéis que ficaram rezando e cantando todos aqueles dias. A saída das forças de segurança da ONU e finalmente o término da missão das Nações Unidas, simbolizado pelo fechamento da UNOTIL (Escritório da ONU no Timor Leste) em maio de 2006 foi o sinal que faltava para iniciar a revolta popular.

O resto pode ser acompanhado na imprensa brasileira e mundial…

Abaixo, reproduzo um relato do amigo André Witter, professor brasileiro integrante da missão da Capes junto ao Ministério da Educação Timorense, uma verdadeira "carta da zona de guerra!, com votos de que as coisas de ajeitem o mais rápido possível para ele e os demais colegas brasileiros:

Minha situação… situação do Timor

André Witter

A coisa está mesmo muito preta.

O que rola é que o primeiro ministro desse país, esqueceu-se de uma regra simples, a ser feita a tempo: cortar o mal pela raiz, quando suas forças ainda permitiam.

Uma crise entre as duas regiões desse país, que embora seja pequeno, passou a dividi-lo em parte leste e oeste. Após um conjunto de medidas, os comandantes estrangeiros do exército, premiaram mais militares de uma região (leste ou loro mono) em detrimento de outra. Alguns militares, hoje denominados peticionários, decidiram revoltar-se contra isso.

Essa revolta de Abril (27 e 28), deu início a uma crise do exército, que se espalhou para a polícia e demais forças, alcançando até setores do funcionalismo público.

Após ataques pontuais, incêndios e destruições sem muita expressão, houve um congresso do partido majoritário do governo. Sem muitas mudanças, esse congresso teve como principal desfecho um verdadeiro bombardeamento de boatos e de pequenos conflitos.

Com medo de um maior caos urbano em sua capital, o Presidente, Xanana Gusmão, firmou um acordo com a Au
strália, convocando suas forças armadas para assumir o controle das forças do país. O problema é que veio um exército, quando a população precisava e ansiava por policiais.

Ontem incêndios, mortes e algum pânico marcaram a noite e o amanhecer. O povo, sem policiais e com fome, em pleno caos econômico pela interrupção das funções do estado, passou a saquear lojas e armazéns.

Além disso, algumas famílias rivais de muitos anos, resolveram incendiar casas e comércio, gerando mais caos urbano. Como vingança é um ciclo vicioso, ocorrem mais ódio e mortes, para vingar as anteriores.

Assim é Dili: calma, com a população vagando pela manhã, violenta e completamente imprevisível a noite.

Em meio a essa confusão, o coordenador de nossa missão pediu que alguém anunciasse duas horas e meia antes da partida do avião, a nossa evacuação. Nenhuma palavra, foi-se para Darwin.

Nossos rendimentos estão atrasados, estamos sem coordenador, sem possibilidades de ficar e comprar comida, com promessas de diárias – se formos evacuados. Dili é uma cidade cara, mas Darwin é caríssima. E é turística, para nosso azar, está em alta temporada. Um hotel, está na faixa dos 150 dólares… Exatamente a diária prometida, que viria com atraso, mas que não paga o custo de alimentação.

Sem salários, sem diárias para evacuação… sem certeza de vôo para Darwin, sem polícia em Díli, com fome – E SEM COORDENADOR. Bem vindos à missão brasileira em Timor Leste, a primeira cooperação (SUICIDA) técnico-científica do Brasil.

Ps. é o primeiro aniversário que passo em guerra. Quando voltar ao Brasil, devem me chamar de "veterano"…

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  • Timor Leste: Diário de Guerra…

    Um relato sobre a atual situaÃão do Timor Leste, com uma carta de brasileiro lá residente….

  • detinha

    ola!!primo sou detinha ,quero te dizer que vc e´uma pessoa de garra,e muito corajoso..que precisamos de mas pessoas assim como vc,,,quero que vc saiba que adniro muito seu trabalho,e estou disponivel para qualquer coisa que estiver ao meu alcance…fica com DEUS,PORQUE E´so nele que devemos confiarmos em 1º lugar….fika na paz ……bjusss

  • Monise

    Muito bom saber do Timor… esse país entrou em minha em 2003 qdo eu me para me graduar em Relações Internacionais elaborei uma monografia sobre a descolonizão e o papel da comunidade internacional nesse processo. Desde então busco sempre saber de Timor, que conheço por leitura e que mora no meu coraÃão. Se Deus permitir ainda conheço aquela terra!

    Parabéns aos autores dos artigos!

    bjos

  • Oliveira Nunes

    Tenho acompanhado de perto – via imprensa – o desenrolar dos acontecimentos em Timor Leste. Embora, como a maior parte das pessoas que estão interessadas neste assunto, deseje que a UNIDADE NACIONAL se restabeleça, em beneficio de toda a sociedade, apercebo-me que não vai ser fácil o restante da transiÃão – não sei se o termo é correto – para designar a auto-suficiência em todos os aspectos.
    Parabens a vc.s que nos dão informações obtidas “in locco” e não só. Resta-nos acompanhar os acontecimentos e torcer para o pronto restabelecer da ORDEM PÚBLICA.

  • [...] Presidente Xanana Gusmão prega reconciliação no Timor Timor Leste: Diário de Guerra Petróleo, Crises, Mundo Atual [...]

  • Tiago Biagi

    CAro André
    Fiquei fascinado com sua Carta, dia 29 de Dezembro 07 estou a caminho de DILI para participar da UNMIT, está dificil encontrar noticias atuais sobre o timor, se puder me ajudar, queria informações, se ainda estiver no timor. Fique tranquilo, estou indo justamente para ajudar a formar uma nova polícia em Dili. Se seve como consolo, estão chegando os militares brasileiro….

    Aguardo sua resposta

    Tiago Biagi
    Tenente Polícia Militar São Paulo – UNMIT

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