Aconteceu de novo… Em Bali.
Aconteceu de novo.
Existe um senso comum de que somente quando certos episódios acontecem próximos da gente é que sentimos verdadeiramente na pele suas conseqüências. A rotina de ataques terroristas em todo o mundo tem sido uma realidade distante para a maioria dos brasileiros. Foram ataques em Nova Iorque, em Londres, em Madri… O de Londres acabou vitimando por tabela um inocente: o brasileiro Jean, imigrante na Inglaterra morto pela polícia ao ser confundido com um terrorista. Este 1º de outubro entra para a história como mais um dia de explosões, morte e indignação - em Bali, ilha paradisíaca na Indonésia.
Em 12 de outubro de 2002 outro ataque terrorista marcou para sempre a até então paradisíaca e pacata Bali: uma potente explosão em uma das principais casas noturnas de Kuta vitimou mais de 200 pessoas (dentre as quais 2 brasileiros). O ataque deste sábado ocorre a menos de 2 semanas do 3º aniversário do primeiro ataque. Desta vez, ao contrário de uma foram explodidas três bombas, uma delas novamente em Kuta e duas outras em outra praia denominada Jimbaram, famosa por restaurantes onde casais apaixonados costumam jantar. Há confirmação de 26 mortos e cerca de 100 feridos. O número de vítimas fatais, entretanto, tende a aumentar.
Os ataques perpetrados lembram os desferidos em Londres e em Madri: foram três explosões praticamente no mesmo horário: 8 da noite, hora local. Investigações dão conta da participação de terroristas suicidas que, carregando mochilas-bomba denonaram-nas. Para aumentar a letalidade das bombas, as mesmas possuíam bolas de aço - após a detonação são espalhadas em todas as direções. É difícil, quase impossível, entender o que se passa na cabeça de um terrorista. Especialmente o suicida: ele põe fim à própria vida, em nome de uma causa. Nós ocidentais nunca entendemos os famosos “kamikaze”, pilotos japoneses que catapultavam seus aviões contra embarcações norte-americanas durante a segunda guerra mundial - causando danos e mortes mas pondo fim à própria vida.
Em nome de uma causa, os terroristas suicidas acabam por atingir vítimas inocentes, cujo único “pecado” ou erro foi ter estado no lugar errado e na hora errada. Kuta, por exemplo, é a mais famosa, mais conhecida e a mais tempo freqüentada praia da Ilha de Bali. É literalmente impossível ir a Bali sem ir à Praia de Kuta e ao seu Centro Comercial. A praia de Jimbaram, como citado, é outro ponto que atrai bastante turistas naquela ilha. Em minha última viagem a Bali estive nos dois lugares. Infelizmente eu poderia ter sido uma das vítimas inocentes deste 1º de outubro. Conversar com um muçulmano, entretanto, permite uma constatação: para eles, ao invadirem o Iraque e lançarem bombas sobre a população civil, os norte-americanos praticam atos de terrorismo, matando inocentes. O mesmo teria ocorrido no Afeganistão. A Austrália apoiou as duas missões (ou invasões), mantém tropas e recentemente prometeu o envio de mais tropas ao Oriente Médio. O maior contingente de turistas em Bali é australiano: vai-se da Austrália para Bali em menos de duas horas de vôo. Ainda não aconteceram atos terroristas na Austrália. Mas no ataque à discoteca em Bali em 2002 mais de uma centena de jovens australianos perdeu a vida. Nos ataques deste sábado pelo menos três das vítimas eram australianas. A Espanha apoiou a invasão do Iraque: os ataques em Madri foram decisivos para a vitória de Zapatero e a retirada das tropas espanholas do país árabe. A Inglaterra é parceiro número um dos Estados Unidos na “luta contra o terrorismo”: os ataques em Londres ocorreram em julho deste ano. Quem será o próximo?
É realmente difícil dizer quem é o “bonzinho” na história. Os ataques terroristas são totalmente reprováveis. Se a invasão do Iraque, visando derrubar um ditador seria defensável, a mesma deveria ter sido precedida de uma aprovação pela ONU. Tal como ocorreu, tratou-se de uma invasão de uma nação soberana por outras. Ao atacar a população civil, a “coalizão” pratica sim atos de terrorismo. Ou ao menos comparáveis a terrorismo: tratam-se igualmente de cidadãos inocentes! Nos dois únicos episódios onde foram detonadas bombas atômicas com fins de ataque, milhares de cidadãos japoneses perderam a sua vida nas cidades de Hiroshima e Nagasaki. O país já estava com a sua capacidade bélica totalmente comprometida e teria se rendido com ou sem a bomba de Hiroshima. Quanto à de Nagasaki, no entanto, não há nada que justificasse o seu detonamento. Os cidadãos japoneses mortos no episódio eram igualmente vítimas inocentes. Teria sido um ato terrorista?
Para finalizar, um comentário: é certo que é próximo o 3º aniversário do ataque à discoteca em Bali mas a escolha deste 1º de outubro parece ter visado muito mais desestabilizar o governo do presidente Susilo Yudhoyono que qualquer outra coisa. Em outro artigo neste blog eu já havia citado a escalada de protestos no país e que vem ocorrendo desde o anúncio pelo governo da retirada de subsídios aos combustíveis. Tal retirada entrou em vigor em 1º de outubro: e os combustíveis em média dobraram de preço. Citei ainda que numa outra oportunidade o aumento de preços de combustíveis teria sido fator decisivo na derrubada do ex-ditador Suharto. O presidente Susilo é muçulmano. Em que pese seja um General criado durante a ditadura Suharto é um presidente eleito democraticamente, nas primeiras eleições indonésias, e é considerado um moderado.
Termino com um trecho de interessante matéria do sítio da Televisão Aljazeera:
Some have speculated the attacks could have come from others seeking to destabilise Susilo's presidency or those upset with massive fuel price increases his government pushed through days ago.
"Há especulações de que os ataques teriam vindo de outros visando desestabilizar a presidência de Susilo ou outros desapontados com o grande aumento nos preços dos combustíveis que o governo realizou dias atrás".


Elimiranda wrote:
Especulações…
Onde há fumaça, dizem que há fogo, mas acredito, já houve fogo ou a combustão para que o mesmo ocorra, mesmo que de forma camuflada.
E isso diz tudo.
Bonzinho é quem se coloca na posição de “coitado”. Porém, a história nos mostra que em alguns momentos seremos os mocinhos, e em outros, os bandidos.
Enfim, não há “coitados”, apenas a eterna busca da superação (do já superado).
Globalização?!? Pura ilusão.
A nossa localização não nos imuniza. Estamos longe,porém tão perto, não é mesmo meu amigo?!
Abração, Sandro.
Posted on 04-Oct-05 at 4:41 pm | Permalink